Crónicas de uma Leitora: 2014

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

AUTHORS FROM 2014 | Adeselna Davies

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There were some authors who did not make my top too-many-books-this-year list that I still think deserve a mention. So if you did not make my best books but I still manage to enjoy your novels, chances are that you are on this “list”.

Carina Rosa

Most of you don’t know Carina, but that really does not matter. As there are many authors who will never arrive to our shelves in Portugal, so many Portuguese novels will not leave our country. And that’s a shame. Carina and I have been working together (when I mean work I mean she writes, I read) for almost two years and it has been an amazing collaboration. To see an author grow and work with them to help them improve is always good.





Elizabeth Hoyt

Even though her novels did not make my this year top, her books are very pleasant to read and she never seems to go wrong with her characters. I have read the Legend of the four soldiers this year and bought the Princess trilogy to read in 2015. Also she has the cutest dog ever, Miss Puppy Pie and we just can’t get enough of her.




Julia Quinn

I have read three novels from Julia Quinn this year and even though they started okayish, her novels have conquered me for their humour. Although Quinn is still far from being my favourite author this year, her novels did brighten up my days and I never found them dull. I hope to read more for her in the upcoming year.



Margaret Moore

My reading relationship with Moore started even less okayish. When I read the Welsheman’s bride I didn’t find it appealing and ended up giving 2stars. From that day on I can’t even consider Moore a guilty pleasure. I just love everything that she writes and I feel no guilt whatsoever. I know that if I want a good medieval romance I can grab one of her books and read them and I will love every singles one of them.




Vivian Winslow

Just like Carina Rosa, Vivian Winslow was a new author, she just started this year and while Kate Regnery already has at least thousands of reviews on GoodReads, Vivian Winslow is a small author who is still taking the first steps. Unlike Carina I did not have the chance to see the novels before they were published, I read the final product, but just like Carina, Winslow showed a lot of potential especially with her Dahlia trilogy. There are more novels to come in 2015 and I will be waiting for them. 




THE BEST FROM 2014 | Adeselna Davies

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2014 was not a bad year, it was a great one, but somehow the bad almost overcame the good. It was a year of discoveries, a year where I got to find out new authors and fall in love with their books. 
It was Megan Hart's year, Kate Pearce's year and hands down to Shelly Laurenston, who still manages to make me laugh and be a little lesbian over her female characters. But these were not the biggest surprise, I knew they were good already, so the crown goes to Eve Langlais.


  
Now Megan Hart is famous and Shelly also has a contract with a big publisher, the same as Kate Pearce. So imagine my shock when I downloaded A demon and his witch for free just to read a goofy free paranormal novel and end up thinking: w...t...f, where have you been all my life, Eve?? WHERE? Why am I finding you only now?!


2014 was the year of taking risks but while the year does not end with a memorable note, it might be the first year where I chose 12 books and not just the usual ten. So, without further ado, here are the best books that I read in 2014 (some covers are in Portuguese but are similar to the English version).
















sábado, 27 de dezembro de 2014

"Se Eu Ficar" de Gayle Forman [Opinião - Livro e Filme]

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Para mais informações clique aqui

Sinopse:
Naquela manhã de fevereiro, quando Mia, uma jovem de 17 anos, acorda, as suas preocupações giram à volta de decisões normais para uma rapariga da sua idade: permanecer junto da família, do namorado e dos amigos ou deixar tudo e ir para Nova Iorque para se dedicar à sua verdadeira paixão, a música. É então que ela e a família resolvem ir dar um passeio de carro e, numa questão de segundos, um grave acidente rouba-lhe todas as escolhas. Nas 24 horas que se seguem e que talvez sejam as suas últimas, Mia relembra a sua vida, pesa o que é verdadeiramente importante e, confrontada com o que faz com que valha mesmo a pena viver, tem de tomar a decisão mais difícil de todas.


O Livro:
Este livro surgiu de forma inesperada nas minhas leituras. Estava a passar por uma fase de ressaca literária, nada do que lia me despertava interesse e ia saltando de livro em livro sem sucesso. Como para a maior parte de nós, não conseguir ler é um drama, começo a ter suores frios, a ver a nossa vida a andar para trás e sentir que o fim do mundo está próximo (pronto ok, não é assim tão exagerado, mas é grave e preocupa-me). E como tinha que arranjar uma solução para problema resolvi ir a livraria. Algum livro tinha que chamar por mim e tirar-me desta angústia, e foi este, "Se Eu Ficar". Depois de semanas sem conseguir ler, este foi devorado, chorado e adorado.

A história de Mia, infelizmente, é familiar a muitos de nós. Todos temos alguém conhecido que esteve mal ou que acabou até por falecer num acidente de viação, e quando se passa na adolescência como no caso da Mia, é sentir que ainda havia tanto para viver e que se ficou a meio do caminho.

A história é contada pela "fantasma" de Mia, a sua alma que se elevou do seu corpo durante o coma e que tem de tomar a difícil decisão de partir junto com a sua família ou ficar e seguir a sua vida sem eles. Pelo meio dos desenvolvimentos do estado clínico de Mia vamos recebendo informações da sua vida e dos seus relacionamentos através das suas memórias, memórias essas que são importantes para a sua tomada de decisão mas também para toda a história do livro em si pois é através das memórias de Mia que vamos conhecendo os restantes personagens do livro, entre eles o namorado.

Este é um livro classificado como YA (Young Adult) mas aconselho-o também a todos os adultos e seniores, porque é um livro lindo, com uma leitura bastante envolvente e rápida.


O Filme:
Além do livro, esta obra conta já também com uma adaptação ao cinema. Confesso que geralmente tenho sempre algum receio de ver as adaptações porque sinto que falta sempre qualquer coisa que para mim foi importante no livro, ou porque certas partes da história foram alteradas (lembro-me do caso do The Hunger Games - filme 1, em que esperava uma cornucópia dourada e era toda ela preta, e por acaso isso até interferia com a história mas pronto, avancemos...). Neste caso do "Se Eu Ficar" digo-vos que o filme, para mim, superou o livro. Pela primeira vez vi uma adaptação que me convenceu e que consegui ver sem estar a pensar "no livro não era assim", porque as partes importantes da história estão lá TODAS. E apesar de já conhecer o final, deliciei-me com cada minuto do filme e desejei descobrir o final como se estivesse a ter contacto com a história de Mia pela primeira vez. E claro, chorei ainda mais do que com o livro...

Tanto o livro como o filme proporcionaram-me bons momentos, fizeram-me recordar como a linha que divide o estarmos cá do já não estarmos é tão ténue e frágil. São livros e filmes assim que são importantes para os nossos jovens, que muitas vezes não dão valor às coisas certas da vida. Para mim, 5* para o livro e para o filme, fiquei deliciada. :D

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

ESPECIAL NATAL | CONTO: Finding Christmasl INÊS MONTENEGRO

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Finding Christmas

um conto de Inês Montenegro


– Manela, querida! É um novo corte de cabelo? 
A avó rebolou para dentro de casa, bem almofadada no interior do seu casaco de pele de coelho. Trazia um chapéu também de pele a condizer com o casaco, e as luvas pretas de senhora não pareciam ser suficientes para a preservar do frio que a neve do exterior emanava. Atrás dela, o avô sorria, carregado com os sacos de prendas, bafejando pelo contacto da respiração com o ar frio.
– Elisa – sorriu falsamente a mãe, estendendo os braços à sogra e beijando-lhe as bochechas. Os lábios torceram-se quando a mulher mais velha a olhou de cima a baixo, analisando-lhe a indumentária com a ferocidade de um falcão. – Já estão todos na sala, deixe que eu lhe arrume o casaco.
– Oh, Manela, o que é isso? – exclamou a avó, enquanto o avô fechava a porta da rua e lançava um olhar de encorajamento à nora. – Não é preciso tratares-nos como visitas, somos todos família!
– É a minha casa, és a porra de uma visita – murmurou Manela, rilhando os dentes e fulminando as costas da sogra, que se aventurava já pelo interior da moradia. 
– Olá, avô – cumprimentou a rapariga, indiferente à má disposição da mãe, que disparara atrás da avó, provavelmente receosa de que a outra tentasse alguma marcação de domínio. – Isso é para colocar debaixo da árvore, não é?
– Ou no sapatinho – retorquiu o velho senhor com jovialidade, entrando na sala de jantar. Já preparado para o efeito, o local parecia saído de um postal de Natal: na parede do fundo a lareira elevava-se, gloriosa, nas suas chamas, apenas semi-escondidas pelas duas tias, em amena cavaqueira, de rabo virado para as labaredas. As meias grossas e rubras pendiam, vazias, na pedra da chaminé, esperando o avançar da noite para serem preenchidas com chocolates e outras guloseimas. De um dos lados, um pinheiro de Natal (belo e verde plástico) ostentava com orgulho enfeites vermelhos e dourados, comprados de novo para aquele ano, substituindo os antigos, já gastos e partidos. Apenas um se mantivera: o pequeno anjinho de cola e papel que o irmão mais velho fizera, ainda era criança de infantário.
Por baixo da árvore enfeitada, tradição adoptada de crenças mais antigas que o Cristianismo, espalhavam-se os presentes, de várias formas e feitios, todos coloridos e artisticamente empilhados. Desviavam as atenções dos mais jovens e pequenos da grande mesa que se estendia pelo centro da sala, carregada com o melhor serviço e os pratos daquela época: arroz de polvo, leitão e bacalhau.
À espera da sua vez, as sobremesas eram cobiçadas na cómoda encostada à parede oposta à do pinheiro de Natal. Aletria, rabanadas, bolo-rei, troncos de Natal, filhoses, orelhas-de-abade, fritos de abóbora e outros tantos eram os fortes concorrentes daquela noite ao aumento de peso de todos os presentes.
E por fim, o presépio. Há duas semanas atrás que Madalena fora com o irmão apanhar musgo para o fazer. A mãe, por entre os resmungos habituais de que era o último ano a que se dava a tal trabalho, havia afastado os móveis da parede do pinheiro, arranjando um nicho onde os filhos se apressaram a espalhar os jornais, colocando o musgo por cima e, por fim, se entregaram à diversão de espetar os bonecos de barro no manto verde, criando histórias e imaginando vidas. Eram lavadeiras, pastores e homens do povo, lado a lado com ovelhas, burros, e os três reis-magos, diligentemente montados nos seus camelos, todos eles maravilhados com o nascimento do Menino. Este, pobrezinho, jazia nu, umas pinceladas brancas fazendo a fralda de panos, de braços abertos na manjedoura. Ladeavam-no José e Maria, de mãos juntas em adoração, e, mais atrás, o burro e a vaca, respirando o aquecimento à criança recém-nascida. Esse grupo, mais restrito e antigo, encontrava a sua protecção no interior da cabana de madeira e zinco, que o irmão, orgulhoso, construíra, há cinco anos atrás (safara-se de bom raspanete com a perfeição daquela obra: rapinara as ferramentas do pai para a fazer, o que no meio do feito acabara despercebido). Sobre a cabana, alertando todos os viajantes, um anjo, a auréola de ferro já torcida e uma das pobres asas partidas. Era o mais antigo dos bonecos, e ainda se mantinha insubstituível: “Corri a cidade e não encontrei nenhum,” desabafara a mãe. “E fazem-nos cada vez mais feios!”
Tudo aquilo para festejar, achava Madalena, pouco mais que hipocrisia. 
Viu os primos correrem na direcção do avô, gritando de alegria à vista do aumento de presentes. Cumprimentaram-no num pico de euforia, pinchando e com certeza piorando as dores de costas de que o velhote sofria, apenas para o largarem minutos depois, sem mais réstias de interesse, e regressarem aos seus importantes afazeres: jogos e brincadeiras.
– Elisa! – exclamaram as tias, vendo a sogra entrar – já sem casaco, chapéu e luvas – num porte de rainha. Atrás dela, procurando disfarçar as bufadelas de raiva, Manela respirava fundo, forçando-se a relembrar as normas de educação e vivência em sociedade. – Já nos perguntávamos quando viria, temíamos que tivesse tido um acidente.
Elisa sorriu, explicando com toda a paciência de um adulto para com uma criança que não, que apenas tinham apanhado um pouco de gelo na estrada.
– E o Eduardo? – perguntou, virando-se para a tia Cristina. – Já desistiu dessa ideia estúpida de ser homossexual? Se alguma vez pensei que um neto meu me viria com essas conversas!
Tanto o tio João, esposo da tia Nani, quanto o pai pareceram invulgarmente interessados na conversa que tinham suspendido sobre o ano de engarrafamento do vinho do Porto que iria ser servido ao jantar. Manela empalideceu, trocando um olhar rápida com a filha, preparando-se para intervir, não fosse Cristina, imóvel e por momentos sem fala, recuperar do choque de uma maneira pouco agradável.
– Não é altura para falarmos dessas coisas, querida – interveio o avô, com uma perspicácia conciliadora. – Quanto a vocês não sei, mas eu já estou com uma certa fome… Que pensas de chamarmos os rapazes, Manela?
Ainda ligeiramente aturdida, Manela acenou numa concordância frágil, antes de transferir para a filha a tarefa de ir chamar o irmão e o primo, Ricardo e Eduardo, entretidos no quarto do primeiro com um qualquer jogo da Wii.
– Diz à mãe que já vamos – argumentou o irmão.
– Olha que ninguém está com disposição para isso – alertou Madalena. – Para variar, anda tudo irritado.
O jantar natalício, feliz momento familiar de convívio e esperança, decorreu num ambiente de cortar a faca, com a mãe e a tia Cristina mal encarando a avó, a tia Nani insinuando melhores maneiras de educar os sobrinhos, os mais novos discutindo sobre quem levava o último pedaço de quê, e o tio João pouco se importando em disfarçar as intenções de barafustar com a mulher assim que voltassem a ficar sozinhos no quarto.
O golpe da misericórdia ocorreu quando Manela, num desabafo mal pensado, deixou escapar o que na mente de todos ia:
– O doce de leite que o Fausto sabia fazer…
O silêncio pesado e constrangedor instalou-se à mesa por momentos, com os adolescentes a olharam, desconfortáveis, para os lados, os pequenos sem perceberem o que se passava, e a avó Elisa a desfazer-se em lágrimas. Cristina, muito educadamente, pediu licença e fugiu para a cozinha, seguida por Manela, ansiosa em reparar o seu erro.
Fausto era, não existiam dúvidas, o assunto proibido. Irmão do pai e do tio João, filho de Elisa e do avô Mário, casara com Cristina, educara Eduardo e ainda vira nascer a filha, Isabelinha, agora com quatro aninhos de idade. Faziam seis meses que falecera num acidente de viação, quando procurava chegar a casa a tempo de festejar o aniversário de casamento.
E aquilo era o seu Natal. Uma época de falsidade, em que a família se obrigava a reunir na mais pura da hipocrisia, aturando-se com muita pouca paciência ou glamour, alimentando o monstrengo capitalista que sobres eles estendia os seus gordos tentáculos.
“Oh oh oh! Feliz Natal!”

***

Acordou sem qualquer razão em especial. Talvez tivesse sido um ruído, ou talvez não fosse mais do que uma sensação, contudo, agora que estava desperta, não encontrava modo de voltar a chamar o sono. Recordou os anos idos de criança, em que teria dado tudo para se conseguir manter acordada durante a noite, de modo a apanhar o Pai Natal em plena actividade nocturna. Naturalmente, nunca tal acontecera, embora por duas vezes tivesse jurado que tinha ouvido os sininhos das renas. Tolices de criança.
Com cuidado para não acordar as primas, saiu da cama, enfiando os pés nos chinelos e lançando o robe por cima dos ombros. Deslizou pelo corredor, descendo as escadas de mansinho, regressando à sala onde a lareira ainda deveria arder. Já que se encontrava acordada, por que não abrir os presentes?
O coração cambalhotou dentro da caixa torácica, batendo em fúria pelo susto que a figura sentada de costas para si lhe pregara. Encontrava-se de frente para a lareira, com um à-vontade e conforto que claramente só poderiam ser conseguidos por alguém que não seria um intruso naquela casa. A cabeça pendia para um dos lados, quase adormecida, e as mãos pareciam cruzar-se no seu regaço.
– Avô?
A figura virou-se para ela, revelando as feições cansadas e bem-dispostas do avô Mário.
– Madalena, querida! – exclamou, num tom afável. – É tão tarde. Já devias estar a dormir.
Apesar das palavras de repreensão, estendera a mão num convite para que a neta se instalasse ao seu lado. Pouco se fazendo de rogada, Madalena pegou numa cadeira, sentando-se também ela de frente para a lareira, agora convertida num incandescente amontoado de brasas.
– Não consigo dormir – explicou. – Pensei em abrir as minhas prendas.
– Esse não é um bom espírito – repreendeu o avô, estalando a língua. – Assim perdes a perspectiva da manhã.
Madalena revirou os olhos.
– Perspectiva? – repetiu. – Todo o espírito do Natal é mentira, avô. Não é uma época que goste muito.
Um lampejo de amargura atravessou os envelhecidos olhos avelã.
– Ah, que triste deve ser isso – murmurou.
– Não é triste, é a verdade.
– Por que dizes isso, querida?
Madalena lançou um olhar desconfiado ao avô. Ao contrário da avó, o avô Mário ponderava as suas palavras, atento ao modo como estas afectariam aqueles que o rodeavam. Era um homem íntegro, bondoso, que frequentemente se mostrara merecedor do seu respeito. Não o queria magoar, não quando ele tomava tanto cuidado para não o fazer aos outros.
– É uma época capitalista, é só vender, vender, comprar, comprar… Qual é a piada?
O avô riu-se, não de um modo ofensivo, mas na honestidade de quem descobrira uma graça inocente.
– Minha querida, o comércio vive sempre disso. Não existe feriado, festa ou dia-a-dia que não aproveitem o que têm para incentivar às trocas de compra e venda! Capitalismo, a bem ou mal, é o karma da nossa sociedade, todos os dias, todas as horas. A importância que ele tem para o Natal não é mais do que aquela que lhe dás.
– Então acha que é correcto? – insurgiu-se Madalena.
– Não. Acho que de dois males, temos o menor. Também já me irritei muito com esse zum-zum de compras que se faz. Agora é-me indiferente. Cheguei a uma idade em que me posso dar ao luxo de saber que consigo escolher o que me afecta ou deixa de afectar.
– Ainda assim – prosseguiu Madalena, pouco convencida – não é isso o pior. O que realmente não entendo é esta obrigação de reunir com a família. A maioria das famílias não se suporta, admiro-me como as Urgências não se enchem por esta altura. Deve haver cada discussão familiar… Veja só o nosso jantar! Foi uma miséria!
– Não foi, realmente, dos melhores – concordou o avô. Um estalido soltou-se algures no meio das brasas, juntando-se aos ruídos típicos de uma casa adormecida. Em cima da mesa, esperando com paciência que alguém lhe desse fim, encontrava-se um copo de leite, ladeado por um prato de bolachas: pequenos agradecimentos deixados pelos primos pequenos ao Pai Natal, que tantas casas tinha para visitar numa só noite. 
– Por vezes – continuou o avô, – precisamos de fazer esses sacrifícios para que todos possam estar com quem amam. Eu queria estar com todos vocês, e também com a tua avó. Mas e se a tua mãe ou a Cristina batessem o pé, e se recusassem a passar a Consoada com a Elisa? Vontade, por vezes, não lhes falta. Imaginas a infelicidade que isso seria para mim, ou para o teu pai? Não falando da Elisa, que ficaria destroçada.
– Natal é sacrifício?
– É dar e receber – corrigiu o avô. – Algo que vai muito mais além do que presentes embrulhados. Eu, todos os Natais, gosto de fechar os olhos e relembrar aqueles que me ofereceram algo durante o ano. Amizade, amor, compreensão, tempo…
Madalena acenou levemente, compreendo onde o avô queria chegar.
– Não sei se precisamos do Natal para fazer isso…
– Ah, se não existir alguma data específica que nos faça recordar, esquecemo-nos, querida. É a natureza da maioria de nós. – Ergueu o pulso, lançando um olhar crítico ao relógio. – E agora que tal se te fosses deitar? Amanhã tens coisas para fazer, ou não?
Madalena riu, sabendo que o avô lhe interpretara correctamente as intenções. Inconscientemente, estivera a relembrar momentos, situações, sentimentos, conversas, gestos e atitudes de amigos e familiares que nunca chegara a agradecer como deve ser. O dia seguinte parecia ser ideal para o fazer. Afinal, naquele Natal, pouco mais fizera do que enviar a todos, sem excepção, uma mensagem massificada, desejando feliz Natal e bom Ano Novo.
– Boa noite, avô – desejou, levantando-se e despedindo-se com um beijo na bochecha descaída.
– Boa noite, querida. Feliz Natal.


Sobre a autora


Inês Montenegro nasceu em Novembro de 1988, na cidade do Porto, Portugal, onde estuda actualmente. Formada em Direito pela FDUP, encontra-se agora a tirar o segundo curso, em Línguas, Literaturas e Culturas, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 
Actualmente tem publicados ou em vias de publicação uma diversidade de contos que se espalham por antologias e fanzines, quer portuguesas quer brasileiras, além de participar no Fantasy & Co, um espaço dedicado à publicação de contos fantásticos.

 http://www.talesofgondwana.blogspot.pt/

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

[Opinião-Cinema]: A Teoria de Tudo

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Um filme adaptado de um livro que retrata o processo de criação que deu origem a um livro. Confusos? Não é caso para tanto!

Comecemos pelo início. "A teoria de tudo" é um filme inspirado na obra "Viagem ao infinito" escrita pela ex-mulher de Stephen Hawking, cientista e autor da teoria astrofísica intitulada: "A Teoria de tudo". Aqui tudo é biográfico e real. 


Apesar de tanto o livro como o filme só chegarem a solo Português em Janeiro, não aguentei tanta curiosidade e vi o filme imediatamente. 

Duas horas depois, é impossível não admirar a força e a coragem de Hawking, que ainda encontra-se vivo nos dias de hoje, apesar dos médicos só lhe darem dois anos de vida, depois de ser diagnosticado com uma doença degenerativa muscular. Esta doença afectou fisicamente Stephen e toda a sua família mas a sua saúde mental continuou intacta e mesmo já doente e incapacitado, conseguiu provar naquilo que acreditava, mostrar ao mundo a sua teoria científica. 



É perfeitamente visível como a ficção se misturou belissimamente com a vida biográfica dos Hawkings, começando logo pela escolha do casting, Ajudou muito terem sido contratados actores, não só com competências de intepretação bastante boas, como também com parecenças físicas ao casal Hawking. 
O filme acompanha toda a trajectória do cineasta até ao seu momento de triunfo, retratando a sua vida pessoal e profissional e mostrando como uma doença pode destruir - ou não - uma família. Os Hawkings não rejeitaram a doença e nem a aceitaram. Adaptaram-se a ela sem se tornarem escravos desta mesma. Claro que muitas vezes chega-se a um limite, onde não dá mais e passaram por um divórcio há 20 anos (1995). Mas a amizade entre o ex-casal perdurou e até foram juntos à premiere do filme:

Felicity Jones, Jane Hawking, Stephen Hawking e Eddie Redmayne (Foto: Getty Images)
O casal Hawking com os actores

Os protagonistas de "A teoria de tudo" merecem todos os elogios que possam ser feitos, em especial Eddie Redmayne que está soberbo no papel principal. Era um actor que já conhecia e antes de ver o filme, não tinha dúvidas que teria uma grande intepretação. As minhas expectativas não foram defraudadas como foram superadas. Felicity Jones merece igualmente os elogios, representando o papel de esposa, sempre presente a viver a vida do marido durante anos, até começar a viver a sua própria vida, sem parecer egoísta ou má pessoa. É um bom tema para reflectir, até onde está-se disposto a suportar por amor, ou pelo bem de uma família, se não somos felizes? 

"A teoria de tudo" resume-se perfeitamente à última frase dita no filme e ao lema com que Stephen sempre viveu:
"Enquanto há vida, há esperança."

Cinema | Uma vida ao teu lado | Nicholas Sparks

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Editado a 10 de Setembro de 2013 pela ASA, Uma vida ao teu lado de Nicholas Sparks está quase a chegar ao cinema. 

Quando Sophia Danko conhece Luke, algo dentro dela muda para sempre. Luke é muito diferente dos homens ricos e privilegiados que a rodeiam. Através dele, Sophia conhece um mundo mais genuíno e puro do que o seu, mas também mais implacável. Ela tem uma vida protegida. Ele vive no limite. À medida que se descobrem e apaixonam, Sophia encara a possibilidade de um futuro diferente do que tinha imaginado. Um futuro que Luke tem o poder de reescrever... se o segredo que o atormenta não os destruir a ambos. Não muito longe, algures numa estrada escura, um desconhecido está em apuros. Ira Levinson tem 90 anos e acabou de sofrer um acidente de carro. Ao tentar manter-se consciente, Ira sente a presença de Ruth, a sua mulher que morreu há 9 anos, materializar-se a seu lado. Ela encoraja-o a lutar pela vida, relembrando a história de amor que os uniu. Ira sabe que Ruth não pode estar no carro com ele mas agarra-se às suas delicadas memórias, revivendo as tristezas e alegrias que definiram a sua paixão. Ira e Ruth. Sophia e Luke. Dois casais com pouco em comum, cujas vidas vão cruzar-se com uma intensidade inesperada nesta celebração do poder do amor e da memória. Uma viagem extraordinária aos limites mais profundos do coração humano pela mão de Nicholas Sparks.

Realizador: George Tillman jr. |Actores: Britt Robertson, Jack Huston, Scott Eastwood, Melissa Benoist, Oona Chaplin| 
Género: Drama | Data de estreia em Portugal: 9 de Abril de 2015


Poster


Trailer



E é já dia 9 de Abril que estreia nos cinemas portugueses mais um das muitas adaptações dos livros de Nicholas Sparks|

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

ESPECIAL NATAL | CONTO: Telhados de Natal | LILIANA LAVADO

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Telhados de Natal

um conto por Liliana Lavado
 

Este ano foi uma merda. Ou antes, foi um ano em que eu fiz muita merda!
É suposto isto ser um exercício de escrita franco e genuíno, daqueles em que o objectivo é o crescimento pessoal, onde abandonamos medos, preconceitos e afins, abraçamos os defeitos (coisas menos boas chamam-lhe os optimistas); uma daquelas terapias passo-a-passo, tipo alcoólicos anónimos, mas menos interessante, porque essa gente sabe como se vive uma vida em festa (a foda é a ressaca!) e nós depressivos crónicos, muito pelo contrário, só sabemos como se vive uma vida em ressaca (e a puta da festa nem vê-la!).
O meu nome é Amélia, e embora não seja suposto estas linhas serem lidas por mais ninguém, ter o meu nome aqui pareceu-me indispensável porque acredito que foi com ele que começou a minha personalidade depressivo-dramática. Amélia. Améééliiiiaaaa. Impossível não concordar que a minha mãe fez a escolha perfeita quando o escolheu. É de facto o nome para um espírito inconstante num corpo descoordenado; um par de olhos alienados, uma cabeleira desgrenhada, unhas roídas até ao sabugo, sorriso condescendente, voz monossilábica... pelo menos foi até ao dia que o meu cérebro fritou.
Qualquer ‘alguém’ que saiba alguma coisa sobre depressão, sabe que quando ignorada, é só uma questão de tempo até o sujeito deprimido (i.e. Eu) entrar em curto-circuito. Tal como num bom livro, chega o dia que não é como todos os outros, os poucos neurónios saudáveis que restam torram e então uma destas três coisas acontece: cenário 1, suicido; cenário 2, assassinato; cenário 3, hospício.
Eu quis ser especial. Consegui. Criei uma simbiose perfeita dos três cenários de horror.
Cenário 1, suicido. Um observador mais desatento classificaria o meu suicido apenas na forma tentada (a julgar pelas cicatrizes nos meus pulsos e o facto de continuar a respirar) e poderia considerar que falhei; mas o corpo foi verdadeiramente a única coisa que sobrou. Já não existo naquela que era a minha casa, não existo naquele que era o meu emprego, não sou a cara-metade de nenhum homem, nem a dona do meu gato, nem amiga dos meus amigos... pronto, talvez último ponto nunca o tenha sido, mas até esse dia pelo menos dava-me ao incómodo de tentar fingir que era.
Cenário 2, assassinato. Evaporei-me numa explosão magnifica que dizimou a imagem que toda a gente nesta terra tinha de mim (os que sabiam o meu nome, quem eu era, ou pensavam/imaginavam que me conheciam). E com isso, assassinei todos eles porque ninguém sobreviveu ao evento; hoje nenhum existe na minha vida. Para o crime apenas usei a verdade, não foi premeditado e a arma apenas de oportunidade, mas ambos foram perfeitos.
Cenário 3, hospício. Poderia ter sido o Júlio de Matos, ou outro qualquer, mas a casa dos meus pais pareceu-me melhor, mais calmo e saudável porque fica no campo. E é aqui que estou nesta história, dois dias depois de ter enfiado numa mochila os meus livros preferidos, no espaço que sobrou umas mudas de roupa; pendurado a mochila ao ombro; mandado comigo e com ela para um avião; chorado baba e ranho; implorado às hospedeiras por só mais uma garrafinha-miniatura de qualquer líquido que contivesse teor de álcool (as baixas pressões baixam proporcionalmente o meu nível de exigência por qualidade); incomodando de forma visível vários passageiros do mesmo voo; continuando a implorar por mais um bocadinho de álcool, para no fim descobrir que as hospedeiras não se importavam com o meu desconforto como eu não me importava com o dos restantes passageiros.
Fui recebida por um pai e uma mãe de sorriso no rosto e braços abertos, as únicas duas pessoas clinicamente sãs na minha família, numa casa que mais se assemelha a um hotel e recheada com demasiadas decorações de Natal. O meu quarto no topo de uma das torres, tal e qual Rapunzel, demasiado pequeno e sombrio para qualquer outra pessoas que não fosse eu, continuava com os mesmos tons verde e bege nas paredes, as mesmas madeira velhas, estantes empenadas, gavetas que não abrem, portas que não fecham, tudo à espera do meu regresso como se nunca tivesse havido dúvida de que ele iria acontecer. O quarto era como os meus pais, e o resto da família, todos lá para o que desse e viesse, nenhum deles surpreendido por me acolher de volta.
Saí pela janela e sentei-me no telhado. O resto do mundo podia estar a mudar a cada minuto, mas não neste sítio. O mesmo cenário de Natal de todas as minhas memórias de Natal. As luzes, os brilhantes, os cintilantes, os vermelhos, castanhos, verdes, dourados, as árvores, as estradas a adormecer, os cheiros das lareiras, nuvens em formas de animais pela imaginação.
Nos escassos minutos de dia em que o sol e a lua cruzam olhares, o vilarejo que me viu nascer e a tentar crescer a cada dia que se seguiu a esse, era o cenário perfeito do Natal. Sem as vozes irritantes que me vinham a ensurdecer desde o tempo que ali tinha estado pela última vez, há demasiado tempo para valer a pena convertê-lo em anos, o meu espírito parecia ter novamente espaço para existir no meu corpo sem necessidade de se encolher ou lutar por ar para sobreviver.
Talvez seja verdade o que ouvi dizer, sobre os momentos em que precisamos de abrir mão de algumas coisas, de destruir, para criar espaço para tudo o que realmente somos poder existir.
Reparei que finalmente já não era enxovalhada entre um ruminar do passado e um imaginar do futuro, remorsos e terror, perdas e possibilidades. Estava de volta, presente, era o momento para o escrever.
Enquanto via o sol a desaparecer, lembrei-me de uma história contada por um índio que não tenho a certeza se foi realmente ele quem me contou ou se fui eu mesma quem inventou o índio (houve uma altura em que as hospedeiras de bordo se importavam com o meu bem-estar e não sabiam da medicação que eu também trazia no estômago). Nessa história, o ancião de uma tribo contou ao pequeno índio sobre uma batalha que decorre dentro de todas as pessoas. Ele disse, ‘Meu filho, a batalha é entre dois lobos, eles vivem dentro de todos nós. Um deles é tristeza, arrependimento, arrogância, condescendência, culpa, ressentimento, mentiras. O outro lobo é alegria, paz, amor, esperança, serenidade, compaixão, bondade, verdade.’ O pequeno índio pensou sobre a batalha e perguntou, ‘Qual é o lobo que ganha?’ O ancião respondeu simplesmente, ‘Aquele que alimentares.’
Com o início da noite, o sino da igreja fez-se ouvir, o silêncio ecoou as badaladas pelos telhados de Natal. Pensei mais uma vez sobre o que fiz, em mim, nos lobos.


Sobre a autora
 
 Liliana Lavado é natural de Estarreja, licenciada em Gestão de Marketing pelo IPAM, com uma especialização em «Strategic Marketing in Action» pelo IMD na Suíça. Viveu em Lisboa durante 7 anos e vive actualmente na Suíça. A sua carreira profissional tem passado pelas áreas logística e marketing operacional em diferentes multinacionais, como a Nespresso. Começou a escrever quando estava na faculdade e, depois de repetidas visitas a livrarias sem encontrar nenhum livro que lhe apetecesse ler, resolveu que o melhor a fazer era pôr mãos à obra e escrevê- lo ela mesma.

[Cinema]: A Teoria de Tudo

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A Teoria de Tudo


O filme só chega em Janeiro e com ele vem o livro, que será editado pela Marcador! O livro, com a capa do poster do filme terá o título de Viagem ao infinito não optando pelo título do filme "A teoria de tudo".

A teoria de tudo conta a história de Stephen Hawkinh, um dos cientistas mais famosos e consagrados da história da ciência. "Viagem ao infinito" foi a obra que inspirou a produção cinematográfica. A autora é Jane Hawking, que esteve casada com Stephen Hawking por mais de 25 anos.

Trailer:


domingo, 21 de dezembro de 2014

[Cinema]: Brooklyn

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Baseado na obra de Colm Tólbin e lançado pela Bertrand em 2010 

Brooklyn : Foto Domhnall Gleeson, Saoirse Ronan

Numa pequena vila irlandesa dos anos cinquenta, Eilis é uma das muitas pessoas da sua geração que não consegue arranjar trabalho. Quando surge uma oportunidade na América, é-lhe evidente que tem de partir. Jovem, sozinha e saudosa, Eilis começa uma nova vida em Brooklyn e a sua tristeza vai sendo gradualmente apaziguada. Quando notícias trágicas a obrigam a regressar à Irlanda, vê-se confrontada com uma escolha terrível: entre o amor e a felicidade na terra a que pertence e as promessas que tem de manter do outro lado do oceano. Uma história de partida e regresso, de amor e perda, da escolha entre a liberdade pessoal e o dever.

A direção é de John Crowley. A adaptação do roteiro é de Nick Hornby.


Ainda não há data de estreia mas prevê-se que seja no início de 2015. 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

ESPECIAL NATAL | CONTO: O Regressado | CARLA M. SOARES

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O Regressado

por Carla M. Soares


Abriu a porta e saiu para a noite fria, abandonando atrás de si o calor da taberna e os sons familiares dos homens, risos e ruídos, pequenas discussões sem propósito nem consequência, o abandonar das tensões e dos medos nessa bolha de ilusória protecção, antes do regresso nocturno à família ou à casa vazia. O odor da neve substituiu o perfume azedo do vinho e ele respirou fundo. Arrependeu-se assim que o ar gelado queimou o seu caminho até aos pulmões, lhe afastou a indiferença do álcool como quem afasta de repente uma cortina e lhe revelou a exaustão absoluta e impiedosa que há muito lhe contraía os músculos. Espalmou a mão sobre a porta escura, agora fechada, para sentir a rugosidade antiga da madeira. Tinha vontade de ficar ali, onde não importava.
- Mas é preciso regressar.
Fora longo o caminho, quilómetros e quilómetros de comboio e a pé de França para a Serra, com essas palavras na boca e um desejo vago dos lugares e cheiros familiares. Queria chegar antes do Natal, era preciso um prazo a empurrá-lo e era quase tarde demais, ou talvez fosse tarde demais desde que partira, um no meio dos tantos que nunca regressariam. Por isso é que era importante voltar. Porque estava vivo. Voltou as costas à segurança da taberna. Os sons abafados das botas a esmagar a neve estouraram-lhe nos ouvidos. Agachou-se, contendo a muito custo o impulso para se atirar para trás de uma carroça parada na estrada e, ofegante, estudou a escuridão da rua e as janelas iluminadas, à procura da ameaça. A cabeça dizia-lhe que estava seguro, estava em casa, era Natal, mas corria-lhe pelas costas um suor frio e familiar. Fitou com incredulidade os pés, a desenhar marcas na brancura inviolada do nevão acabado de cair.  Neve branca e limpa de lama e porcaria. Neve da sua terra no cimo da Serra.
«Não é nada. Não é nada.» 
As palavras não diminuiram o ritmo do tambor de guerra que lhe rufava no peito. Tanto medo de ter dentro uma reserva eterna de memórias vivas.  Levantou-se devagar, temendo que o vissem de uma janela ou da taberna. Não queria que viessem saber o que se passava, não era nada, só a batalha no sangue e nos ouvidos. Os estampidos, as explosões, os gritos, a morte que, no seu silêncio, gritava mais alto que as sirenes.
«Não é nada, vai para casa enquanto podes.»
Ajeitou o casacão coçado que lhe fora passado de outro homem. Usava há muitos meses o casaco de um fantasma, grande demais para um homem como ele, que nunca fora alto nem forte e se via reduzido a pele e osso pelo muito tempo de trincheira, fome, frio e medo. Tantas vezes sonhara com a sopa de couves da mãe, com o cabrito assado do Natal. Tantas vezes tentara fechar os olhos e sentir na língua o sabor desse repasto… tantas vezes, em vão. Sentia o sabor da ração magra, da sua própria fome, da terra enlameada, da bosta e do mijo, da pólvora, do gás mostarda que deixava à sua passagem sempre um vestígio que se colava à garganta. Por vezes, achava que não se livraria dele e morreria envenenado um dia, daí a dez anos ou vinte ou uma centena. Que importava. Ia para casa. Ia para casa ou chegaria atrasado. Ignorou a escuridão e pôs um pé à frente do outro, como se fazia em cada batalha, o medo apertado na barriga e as pernas obedientes.
Nada mudara na forma como o granito se agachava contra o chão nem no modo como a luz do fogo na chaminé se escondia, tímida, por trás de portadas cerradas contra o frio do Inverno serrano. Tinha a mesma forma tosca e escura, o telhado irregular acachapado a deixar adivinhar a grossura das paredes de pedra que o suportavam, uma única porta cujas fendas a mãe escorava com feno contra as rajadas frias. Trepou os últimos metros de trilho escorregadio a tremer, quase sem sentir os pés e a mãos, sem saber se o que o deixava dormente era o frio. A casa parecia esconder-se dele. Talvez lá dentro também se escondessem da certeza de que filho e marido não regressaria. Do medo de que regressasse. Talvez não o reconhecessem, talvez já nem o quisessem, mãe e mulher tanto tempo abandonadas à sua sorte.
«E volto-lhes assim.»
Por fora vinha mais mirrado do que quando pastoreava na serra e se alimentava de pão, vinho, cebola, um naco de toucinho ou queijo, mas trazia o mesmo nariz afilado, as mesmas orelhas que se avermelhavam por tudo e por nada, a mesma face sempre escurecida por uma promessa de barba. Era por dentro que ele era outro, e esse saía-lhe pelos olhos e pela voz tantas vezes que nem sempre sabia qual seria ainda.
- É dos homens que trago comigo. – murmurou. Dantes trazia-se apenas a si e ao espaço aberto, trazia a melancolia e a a alegria de dias infindáveis entre o céu, o solo duro da montanha e os seus animais, noites entre as pernas da mulher. Agora eram as caras sem nome, as formas sem cara, os pedaços de gente que o preenchiam. Um ano e meio era pouco tempo no espaço de uma vida, muito tempo apertado numa trincheira, desde que chegara a França que não sabia de si no meio dos retalhos dos outros e agora não sabia bem quem tinham devolvido à família.
Chegou-lhe o perfume reconfortante da lenha queimada e o aroma delicioso do cabrito, um feitiço a chamá-lo. Andou mais depressa quase sem dar por isso e bateu à porta, com medo de abri‑la sem aviso e dar de caras com a caçadeira do pai com a cara da mãe por trás. A cara da mãe na ponta de uma caçadeira era uma qualquer cara alemã. Não, a cara da mãe, escura e mirrada, nunca seria uma grande e vermelha cara alemã, nem na noite de Natal, corada do vinho e do calor da lareira. Tinha visto muitas dessas caras coradas a sorrir como sorria a mãe no Natal, na consoada em que tinham cantado todos de um e do outro lado da terra de ninguém, espreitando do fundo das trincheiras, lembrava-se da estranheza das vozes, do medo enquanto uns e outros atravessavam essa terra de ninguém e se encontravam no meio, da impressão das palmas calejadas das mãos inimigas nas suas, as mãos eram iguais afinal ao trocar votos de Festas Felizes, a mesma alegria dorida, ao festejar sem cabrito nem família. Tinham sido companheiros por um instante, e matado uns aos outros dias depois, disparando como se pedissem perdão. Ao seu lado tombara no primeiro dia do ano um homem sem pernas, mais adiante um caíra por ser demasiado lento com a máscara de gás. Estremeceu, engoliu o sabor a morte que lhe subia das entranhas e bateu com mais força.
- Ó da casa! Abram, que sou eu. Ó minha mãe, é o João Tomé. Fidelina, sou eu… acho que sou eu. – Primeiro gritou, depois já não. Soprava com a testa encostada à aspereza confortável da madeira. – Minha mãe, abra a porta que tenho frio.
Abriu-se uma fresta e um olho escuro em meia cara muito pálida e lisa espreitou, desconfiado.
- Fidelina.
- João Tomé, és mesmo tu?
A porta abriu-se de repente e ele viu-se puxado para dentro, para a luz meiga das chamas, por mãos incrédulas que lhe apertaram o rosto, lhe deslizaram pelos ombros, a comprovar‑lhe a existência, a assegurar‑se de que era palpável. Sentiu-se um fantasma.  
- Rosa, é mesmo o seu filho!
Exclamações. Um grito. Braços sobre ele, uma gaiola de calor em seu redor, uma gaiola de lágrimas femininas, o seu nome gritado com alegria, a sua condição de filho e marido e regressado. Entrou em pânico. Por um instante lutou contra elas, empurrou mãe e mulher, que na sua alegria espantada mal notaram a resistência. Forçou-se a aquietar o corpo, à espera que amainasse essa explosão demorada de amor. Foi difícil. Conseguiu. Fidelina livrou-o do casacão.
- Vens tão magro, homem…
Sentaram-no à mesa e, com a diligência das cuidadoras, empurraram para a sua frente um prato cheio. O perfume antigo e forte do anho encheu-lhe o corpo. Atirou-se a ele como se não comesse há vinte anos. Talvez não comesse bem há vinte anos, cada mês na trincheira era uma eternidade. As mulheres viram-no devorar, levando a comida às próprias bocas num silêncio de perplexa maravilha. Fidelina fitava ansiosa o rosto encovado, à procura do marido. Queria ver-lhe os olhos, saber se ainda traziam por ela aquela paixão que nunca a deixava descansar.
- Deixaram-te vir para o Natal?
- Sim. Estou cá. Queria chegar e cheguei a tempo. Cheguei a tempo.
- Estás bem?
Ele ensaiou um sorriso que lhe saiu torto, um esgar. Sabia lá o que estava.
- Estou vivo.
Fidelina abriu a boca cheia de perguntas, a sogra sacudiu a cabeça. O coração de mãe dizia‑lhe que nessa noite era melhor calá-las.
- Pois vieste mesmo a tempo para a Consoada, isso é verdade. – afirmou, como se o filho tivesse ido só dali a Lisboa um mês ou dois – Daqui a pouco passa a carroça do Silvano e vamos à missa do Galo. Queres?
- Não, mãe. Estou cansado. – Recostou-se, com o calor das chamas a amolecê-lo e o peso do cabrito no estômago. Já não tremia, a não ser no fundo da alma.
-  Também não vou, mãe. – anunciou Fidelina, de olho no marido. – O senhor padre há-de entender.
O crepitar das chamas aprofundava o espaço vazio entre a mulher que tanto tempo esperara uma carta a fazê-la mais uma viúva na serrania, e o marido inesperadamente regressado.
- Tinha medo que não voltasses.
- Estou cá. Vim para o Natal. – repetiu, de repente vazio de objectivos. Fidelina entrelaçou à força os dedos nos dedos compridos e rigídos do seu homem. Era seu, havia de ser capaz de trazê-lo para si novamente.
- Rezamos tanto por ti e Nosso Senhor ouviu-nos, trouxe-te logo nesta altura! Foi tudo tão triste sem ti, João, sem sabor, sem nada. – Apontou vagamente para a comida, ainda em cima da mesa, e tocou nos lábios. – Estive sempre à tua espera, sempre, mas quando chegou a carta da Rosa…
A Rosa, viúva do Olegário, companheiro de infância, camarada de Companhia e trincheira. Só na morte não o seguira, o seu corpo intacto, o do outro desfeito. Estremeceu da cabeça aos pés. Os dedos quase se soltaram dos dela, mas Fidelina apertou-lhos e arrastou o banco para chegar-se mais. Ele quis fugir mas não fugiu, reconheceu-lhe o cheiro a mulher e a pó de talco que o intrigara desde a primeira vez que roçara por ela, para lhe sentir as carnes. Nenhuma das putas que o aliviara lá longe cheirava assim. Era o cheiro a casa e à sua cama.
- Tens que voltar? Não ficas?
Não disse nada. Tinha que voltar. Não voltaria. Viera à procura de um esquecimento temporário na casa da sua infância, prometido em cheiros familiares e garfadas de boa comida de pobre, e nas coxas da mulher. Depois falariam, antes levou-a para a cama atrás da cortina. Fidelina despiu-se, ele não. A madeira velha chiou sob o peso deles quando ela o recebeu, primeiro tímida, depois toda calor e entusiasmo. Era seu. Seu. Abriu-se a ele, deixou-o avançar, em cada investida, os horrores recuaram para um lugar mais escuro ao fundo da casa, curto e doce o esquecimento do amor.
- Vou fugir, Fidelina. – anunciou, gasto o fervor, as duas cabeças juntas na mesma almofada – Fico estes dias e depois vou-me. Não volto para França. Morro lá.
- Não fico aqui sem ti.  
- Não te deixava. Vens.
Lá fora, a carroça chiou. Fidelina saltou da cama, vestiu-se à pressa. A porta abriu‑se e deixou entrar a mãe e o perfume da neve. João sorriu. O medo vivia longe do aroma do Natal.
  

Sobre a Autora:

Carla M. Soares nasceu em Moçâmedes em 1971. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras de Lisboa e tornou-se professora, de alma e coração. Tem um mestrado em Estudos Americanos. A tese de doutoramento em História da Arte, começada na Faculdade onde se formou, aguarda dias mais tranquilos para uma conclusão cuidada. Publicou em 2012 o romance de época Alma Rebelde, com a Porto Editora, e embarcou em 2014 na aventura digital, publicando o romance A Chama ao Vento, com a Coolbooks. Trás-nos agora pela Marcador o seu mais recente romance de época O Cavalheiro Inglês.